Três tempos de pintura

Paulo Reis

 

Segundo o mestre Argan “a arte moderna nasce da cultura artística do Iluminismo”, cujos temas fundamentais eram a recusa da retórica barroca figurativa, a busca de uma lógica de representação formal e a autonomia do artista. Deste legado nasce a consciência moderna do aprendizado do ateliê e da referência. O que o pensamento contemporâneo vai chamar de “Pós-modernidade”.

Três tempos de pintura  se insere neste contexto da referência como busca da autonomia. Bel Barcellos, Luíz Ferraz e Miguel Pachá estabelecem esta autonomia como síntese de seus trabalhos. Apesar de mostrarem uma pintura diferente em todos seus aspectos formais, os três apresentam, na Sala Bernadelli do Museu Nacional de Belas Artes, esta gestação temporal de uma pintura concebida dentro dos cânones modernos.

Bel Barcellos vai buscar em Klimt uma figuração que aparece e desaparece de acordo com sua necessidade cromática específica. Mais precisamente em a “As três idades da mulher” que lhe serve de parâmetro para trabalhar o plano da tela. Ela divide esta figura em partes, fazendo uma incisão nela, repartindo-a pelos vários cantos da tela, encobrindo-as de cores luminosas, na primeira fase, e aguadas e pastéis, na segunda. Bel busca a essência e autonomia desta figura que nasceu num tempo moderno e se estabeleceu como signo desta arte.

Luíz Ferraz vai buscar nas paisagens a representação da funcionalidade da arte, por conseguinte, do desenvolvimento do gênero mais adequado a esta racionalidade: a paisagem natural do seu país. Como brasileiro, vivendo no exílio, Ferraz busca na natureza brasileira esta autonomia social e psicológica. Sua ligação com Maria Polo e Mohaly não se dá por acaso: são laços formais de um pensamento plástico calcado na natureza (entenda-se representação desta natureza não mais como janela) que ficou presa à sua memória. O tempo como senhor desta natureza grudada nas mais preciosas camadas de tinta.

Miguel Pachá continua na sua cruzada matéria e representação, em busca de um tempo perdido nas paisagens lunares, orgânicas, feitas de luzes que impulsionam a matéria . “Faça-se a luz e foi feita a luz”. Pachá vai a Turner e a Constable, paisagistas ingleses modernos na sua concepção de natureza, para criar sua autonomia. Mas as paisagens do pintor contêm uma expressividade dramática digna de Rembrandt com suas tempestades. Se nos ingleses essa natureza é concebida como ambiente de vida e não reflexo do criador na imagem do criado, em Pachá essa natureza é a passagem do tempo de aprendizado e sua construção cultural.

São três tempos de pintura localizada na esfera do tempo moderno. Tempo senhor de todos os tempos e por isso irrefreável na sua razão de existir.

 

Três tempos de pintura
Paulo Reis, 1995 (imagens)

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