A Pintura de Bel Barcellos

Ariano Suassuna

 

Duas são as grandes linhagens em que se dividem os pintores: a linear e a pictórica. A primeira, reúne os artistas que preferem contornar nitidamente a forma ou as figuras que aparecem em suas telas. A segunda, aqueles que preferem pintar por manchas, de modo tal que as figuras ou formas abstratizantes de seus quadros só gradativamente se destacam do campo que as envolve. Ingres era um pintor linear. Rembrandt era pictórico.

Ambas as linhagens são legítimas e cada um de nós pode escolher uma ou outra, de acordo com nossas preferências pessoais. Quanto a mim, desde muito moço tinha preferência pelos pintores lineares. E a discriminação só se acabou por causa de um acontecimento de certa maneira alheio ao campo da Arte: foi vendo uma reprodução colorida do Santo Sudário que de repente percebi a força de uma pintura que, como ali, usasse a mancha e o claro-escuro como base de sua linguagem.

Depois daí, os preconceitos se acabaram ou diminuíram – e eu pude apreciar melhor certos quadros, inclusive alguns pintados por meu filho Dantas Suassuna.

Esta foi a reflexão que me veio ao espírito assim que me vi diante da pintura de Bel Barcellos. Nela, a técnica da linhagem pictórica aparece quase que em estado puro, às vezes em sugestões de figuras (como em “Vestígios do olhar”, por exemplo), mas outras vezes adotando apenas formas abstratas ou abstratizantes. É uma pintura bela, forte e que, ao ser colocada diante de meus olhos me sacudiu fortemente, porque mostrou ao velho escritor que sou hoje, que, às vezes, “a essência da Pintura também pode ser a Música imobilizada” (para usar, a meu modo, palavra de Novális sobra a Arquitetura).

 

A Pintura de Bel Barcellos
Ariano Suassuna, 1997 (imagens)

 

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