Alvas, quase-almas, como alvas

Sonia Salcedo del Castillo

 

Sentir-se entre o olho e o espírito, diria eu, diante dos trabalhos ora apresentados por Bel Barcelos. Sim, porque parecem precipitar um dialogo entre opostos de nossa percepção, indicando-nos da materialidade à imaterialidade que possuímos. Porque nos dão a impressão de querer relacionar um quê de real e outro de ideal que nos habita, levando-nos a refletir sobre o que vemos ou imaginamos, quiçá sonhamos, enfim… Penso ver aqui um hífen entre corpo e alma.

Essa atmosfera espiritual envolvendo o conjunto exposto pode-se intuir desde o nome atribuído à mostra, “De tão alvas quase almas” – passando pelos títulos e números de suas séries, assim como pela feição de seus trabalhos – até a retórica que nele se desenvolve, mas não só. A própria concepção de sua montagem, remete à relação imanência/transcendência, lançando a nossos sentidos a clara e correlata dicotomia: razão e emoção.

Num módulo observamos seis séries de pequenos desenhos sobre papel – antes vigorosos traços sobre vegetal, que, graças à técnica do decalque, repousam, esmaecidos e leves, nos tons do marfim ao cinza, sobre o papel canson –, então, racionalmente contidos em caixas emolduradas, série por série, montados à maneira linear, em ordem cartesiana sobre o plano expositivo. Enquanto em outro, seguindo racionalidade oposta, experimentamos a série de amplos desenhos sobre tecido – incluindo linhas bordadas em fios de nuanças coloridas, sutis como água ou pulsantes como sangue, além da gama do negro ao cinza, peculiar aos traçados a grafite e a bastão óleo, que resultam delicadamente aquosos sobre lençóis brancos –, assim, dramaticamente lançados como elemento cênico na galeria, quais alvas ou almas de linho, como se o espaço expositivo, de fato, teatral, fosse.

Do desenho à transparência fluida, são, pois, séries alvas semelhantes a almas, mas também a alvas ou finalidades centrais. Trata-se, aqui, de uma produção, mediante a qual Bel Barcellos mostra o resultado de pesquisas – diga-se, levadas à exaustão –, realizadas após seis longos anos, acerca do desenho e da figura sobre papel e pano. Acredito eu, também e concomitantemente, acerca de si.

Numa delas, uma investigação formal questiona o desenho enquanto modelo representativo. Mediante linha, óleo e/ou grafite sobre tecido, aguado por solvente, bem como o transfer a grafite sobre papel, pincelado com cola – técnicas simples somadas ao traçado, também bordado e naturalmente sensível da artista –, Bel nos faz transitar entre experimentações perceptivas ora lineares, ora pictóricas. E, num lapso de tempo, apreender como resultado perceptivo figuras leves, por vezes quase em movimento, fluidas, transparentes, mas sobriamente luminosas ou inquietantemente claras.

Essa verve transcendente que nos toma em relação aos trabalhos aqui expostos advém, em especial, da outra pesquisa proposta pela artista: uma investigação conceitual a respeito da figura enquanto modelo retórico. Após trabalhar e retrabalhar a figura de maneiras distintas em sua produção artística – fosse sob a forma da abstração, fosse à maneira de personagens ou figurinos, fosse, ainda, singela como puro traço ou exuberante como sofisticação cromática de muitas cerdas –, Bel parece querer insinuar estórias mediante suas silhuetas, incorporando, agora, uma literalidade quase retórica em seu trabalho, como provável legado teatral de uma artista também cenógrafa.

Se, aqui, a figura traçada é feminina, então, a artista desdobra sua investigação em direção ao universo espiritual feminino, constituindo, assim, uma retórica por meio dessas séries de desenhos, como diz ela, para “falar da mulher no curso dos séculos”. Não é sem motivo, portanto, que na maioria das séries as indumentárias usadas não possuem uma linha capaz de relacioná-las a cronologia, perfil ou âmbito exatos. Flertando, entretanto, com possíveis nexos históricos ‘estabelecíveis’, digamos, brincam de tempo, tipos e personagens na esfera do assunto representado.

Assim, ao observarmos suas figuras, tanto podemos identificar bruxas quanto freiras, devassas ou castas, voluptuosas ou voluntariosas, libertinas ou libertárias, submissas ou guerreiras, selvagens ou refinadas, santas ou diabas. Mas o que a artista parece querer nos apresentar – e nisso, percebam, reside sua terceira e fundamental pesquisa, ou investigação existencial – é a feminilidade em seus ciclos, assim como a Lua em seus mistérios quase mediúnicos, ora oculta, ora insinuante, ora exuberante, ora tímida; ora toda, ora parte, ora metade, ora nenhuma. E sendo, pois, telúrica ou celestial, girando entre a Terra e o Sol, quer descobrir-se ou reconhecer-se nessa órbita como elipse de fertilidade e luz.

São mulheres em síntese, em transe, em espírito, em crise, em metamorfose. Insones ou desnudas, insinuando o lado vermelho – não de Marte, mas de Vênus. Deusas sedutoras como serpentes ou demônios, implicando pecados e sacrifícios – “quem limpará o sangue de nossas mãos?”, indaga a artista. Imaculadas como pombas ou lírios, suscitando  abnegação e submissão frente ao divino – Salve Maria, Nossa Rainha!… São, pois, inspiradoras como lágrimas, libélulas, rosas ou corações encarnados… Melhor, Musas como estrelas, porém, não somente Vésper, antecedendo a noite, mas antes de tudo, à maneira d’Alva. Sim, Estrela d’Alva branquejando o horizonte, precedendo o dia… Alva: alvor primeiro, nitidez do princípio, divino motu continuum – manifestando a vida –, quase-alma, como alva, X num mapa alvicelestial… em si: meio e fim!

 

“Alvas almas” (sete desenhos evocando religiosidade e espiritualidade); “Corpo estranho” (sete desenhos remetendo a transes mediúnicos); “Encarnadas” (seis desenhos acerca de sacrifícios ou rituais); “Trabalho de mulher, brinquedo de criança” (10 desenhos relacionando a espiritualidade existente entre a curiosidade pueril e a índole feminina); “Elas vêm trazer encanto ao mundo (pentapitico de nus); e, por fim,“Desassocego” (sete desenhos sobre a angústia do estado insone).

Observe-se nesta última série o contrapondo estabelecido entre a imanência do corpo e a transcendência do espírito. O corpo, como chumbo, não liberta a leveza do espírito. Ressalte-se, ainda, o fato de nessa série a indumentária não ser alva, mas sombria.

Cujo título dá nome a exposição: “De tão alvas quase almas” (nove desenhos sobre lençóis brancos que, explorando ícones de fé ou religiosidade, somados a efeitos plásticos de movimentos, remetem ao par corpo/espírito).

O jogo de palavras justifica-se pelo fato de alva também significar veste talar ou túnica até os pés de tecido branco usada por condenados, rumo ao sacrifício, ou por sacerdotes para celebrações e ofício litúrgico e, assim, assemelhar-se à imagem do arquétipo criado para fantasmas, espíritos e, portanto, almas.

Parte branca do alvo.

Feliz analogia, visto que a série de desenhos sobre tecido possui nove lençóis, assim como musa ou cada uma das nove filhas de Zeus e Mnemósine, que presidia as artes e as ciências que também totalizavam nove.

Menção à performance Alviceleste, de Márcia X, realizada nas Cavalariças da EAVPL (2004/ RJ) em razão do forte diálogo que se estabelece com esses trabalhos de Bel Barcelos.

 

Alvas, quase-almas, como alvas
Sonia Salcedo del Castillo, 2005 (imagens)

 

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