Procissão

Paulo Reis

 

“ Olha lá vai passando a procissão / se arrastando que nem cobra pelo chão / as mulheres que nela vão passando / acreditam nas coisas lá do céu…”  G. Gil

Procissão poderia ser um belo título de uma série de pinturas de Bel Barcellos. E é. Assim como rezadeiras, esquecidas, mães, velhas beatas. O universo feminino, místico e ancestral na obra desta pintora é a mais sublime representação do humano. Seus seres habitam outro mundo que não o nosso, elas trazem sua aura do imaterial, do ato criador sendo a própria criatura. Exterior e interior, luz e sombra, pele e carne de um mesmo ser que emerge de um fundo de cor, ora terrosa, ora escura, quase lúgubre.

Na procissão de Bel Barcellos as mulheres caminham em ato contrito, numa marcha solene de caráter religioso. Adoram algo que está fora do quadro, em algum lugar que a própria história da arte guarda. Sua mulher vem do “ pai Millet”, como Van Gogh o chamava. Mas ela é apenas um entre tantos outros seres que a artista poderia se apropriar, como uma Madonna de Cimabue ou Giotto. O que importa para a artista é a representação através de uma imagem que não é aquela, mas sim sua nova significação.

Através do processo dos carimbos (a artista desenha uma imagem num plástico, cobre com tinta e aplica sobre a tela), Bel Barcellos  transfere a “alma” da pintura e, desta maneira, cria uma série ao mudar sempre o fundo, a luz, ou a cor. Essa dessacralização da imagem é também um moto contínuo em seu trabalho.

A visão de sua Procissão traz uma antítese da imagem original. Enquanto a camponesa de Millet larga seus afazeres para entrar num mundo espiritual, de adoração, mantendo-se imóvel, as mulheres de Bel Barcellos movem-se pela força da disposição das telas enfileiradas, uma a uma, num incessante murmúrio de rezas e passos arrastados. Ouçamos, apenas…

Assim, esta Procissão arrasta nossos sentidos, enviesa nossas almas, nos põe de joelhos diante da humilhante condição humana. Assim como Millet, a artista quer nos fazer lembrar que somente na arte há esperanças, há redenção. Ela é o bálsamo para nossas mazelas e fraquezas.

 

Procissão
Paulo Reis, 1998 (imagens)

 

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