Onírica fantasia: ficção ou realidade?

Sonia Salcedo del Castillo

 

Os trabalhos mais recentes de Bel Barcellos têm oscilado entre binômios diversos: corpo/espírito, razão/emoção, transcendência/imanência, espaço/tempo, enfim. Contudo, a série apresentada aqui promove nova reflexão em torno de outra relação: meio/linguagem.

A camuflagem do limite entre representação e realidade, expressa nos bordados e desenhos da artista, aponta-nos    questões inerentes às histórias da arte e do pensamento humano: como se destitui o meio como suporte a partir da pintura-objeto? Dessa forma, como delimitar a fronteira entre ficção e realidade?

Para Nietzsche, buscamos uma “verdade” diretamente ligada a um mundo verdadeiro, ou seja, a um mundo estável, permanente, que tende a um fim único. Porém, este mundo é simplesmente uma quimera… As ficções – narrativas imaginárias, irreais ou obras criadas a partir da imaginação – estariam, pois, a serviço da nossa auto-preservação.(1)

Como nosso foco não se refere a qualquer expressão de linguagem, mas à ficção artística, as obras expostas por Bel Barcellos nos levam a refletir por qual razão criamos ilusões de realidades, formas, figuras e espaços visando a narrar histórias que nunca existiram? Por que construímos imagens que não pertencem à natureza, de maneira a materializar ideias e desejos que temos em mente?

São indagações resultantes de uma série de dez objetos de linho, bordados e desenhados , em que o preto e o branco são a base para a inclusão delicada de nuanças sépias e primárias (azuis, amarelos e vermelhos) de linhas leves e massas difusas, qual nuvens a incitar nosso imaginário em direção a histórias utópicas, através de imagens fantasiosas, capazes de transportar nosso espírito para  a atmosfera do sonhos…

Sim, a construção de um espaço ficcional deriva da experiência onírica. A ficção advém do fato de o homem sonhar. Na ficção repetimos conscientemente o que inconscientemente fazemos no sonho mediante imagens cujo sentido só existe em nossas mentes. Assim, criamos um mundo para efetuar desejos.

O caráter eminentemente fantástico das imagens realizadas por Bel Barcellos remete-nos a figura mítica da quimera, ora expressa como cegonha, ora como capricórnio ou coruja… Frutos da imaginação… Oníricas fantasias… Lúdicas utopias… Ilusões românticas como sapo-príncipe, cavalinho-carrossel… Ou linhas diáfanas de folhas e pássaros a conferir leveza ao corpo em repouso. Eis a liberdade perene que os desenhos/bordados ou poemas-trama-objeto aqui expostos nos ofertam: alçar vôo tão transitório quanto o tempo em lapso.

 

– […] a nossa inclinação básica é afirmar que os juízos mais falsos […] nos são os mais indispensáveis, que, sem permitir a vigência das ficções lógicas, sem medir a realidade com o mundo puramente inventado do absoluto, do igual a si mesmo, o homem não poderia viver. Ver Zaterka, L., Cadernos Nietzsche 1, p. 83-92, 1996, FFLCH-USP.

 

Onírica fantasia: ficção ou realidade?
Sonia Salcedo del Castillo, 2010 (imagens)

 

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